O padre Paul Boulin (1875-1933)
(pseudônimos: R. Duguet e I. de Récalde), escritor de Troyes, de história estranha
Lucien Ceyssens
Antigamente, quando era estudante em Roma e ali preparava minha tese sobre o jansenismo, durante uma venda de duplicatas da Biblioteca Gregoriana comprei um lote de brochuras em francês, in-12º, de certo I. de Récalde, publicadas em Paris, a maioria pela Librairie moderne. À primeira vista, esses opúsculos pareciam ter alguma relação com o jansenismo e o antijansenismo, assuntos que já então eu julgava inseparáveis. No entanto, o autor I. de Récalde me era desconhecido; logo soube, porém, por pessoas de meu círculo, que provavelmente se tratava de um desses historiadores mal-intencionados que primeiro vêm colher material em torno do Vaticano para depois combatê-lo. Em suma, minhas brochuras permaneceram em minhas estantes[1] até que, por volta de 1978, comecei a ocupar-me da bula Unigenitus e de seus promotores, entre os quais o Pe. Le Tellier, confessor de Luís XIV, era um dos principais.[2] Foi então que, intrigado por esse instigador tão importante, lembrei-me de minhas brochuras de Récalde, entre as quais se encontrava efetivamente Abbé de Margon, Lettre sur le confessorat du P. Le Tellier avec une Introduction et des Notes sur la Politique des Jésuites et l'Oratoire, de I. de Récalde, Paris, 1922. Daí surgiu meu estudo anedótico: Autour de la bulle Unigenitus. L'abbé Guillaume de Margon († 1760), “agent secret du P. Le Tellier”, em Lias 10 (1983), 137-163.
Daí também minha curiosidade se voltou ainda mais para o próprio I. de Récalde, autor desconhecido, de má reputação, mas escritor de valor. Pelo Catalogue imprimé de la Bibliothèque nationale de Paris, t. 147, p. 596, soube bastante depressa que se tratava de certo padre Paul Boulin, da diocese de Troyes. Dessa cidade recebi em seguida informações preciosas. A srta. F. Bibolet, conservadora-chefe da Biblioteca Municipal e dos Arquivos Antigos, forneceu-me gentilmente, em 2 de outubro de 1982, alguns endereços úteis e uma breve notícia biográfica, extraída de Alfred Morin, Saint-Pouange, p. 57:
“Paul-Émile Boulin, pároco de Saint-Pouange de 1913 a 1919, antigo diretor de internato na École Bossuet em Paris, antigo diretor em L'Univers, autor, sob o pseudônimo de Roger Duguet, de vários romances, de um estudo sobre Simart etc. ... morto em Moussey (Aube), para onde se retirara, em 4 de julho de 1933.”
Eu já estava bastante adiantado, mas S. de Moreau, chanceler do Bispado de Troyes, informou-me ainda mais. Membro da Société archéologique de l'Aube, ele próprio estudara, no fim dos anos 1960, o volumoso dossiê Boulin, conservado nos Arquivos do Bispado, e falara mais de uma vez, nas reuniões de sua Sociedade, desse homem de Troyes pouco conhecido, sem contudo chegar a publicar seus trabalhos. Teve a gentileza - pelo que lhe agradeço cordialmente - de me fornecer o texto datilografado de duas de suas comunicações.[3] É sobretudo delas que, sem voltar a assinalá-lo a cada vez, retiro muitos detalhes desta breve notícia biográfica.
Notemos ainda que M. de Moreau, além do dossiê Boulin dos Arquivos episcopais, pudera consultar uma sobrinha do padre Boulin, que fora ao mesmo tempo sua afilhada e, durante algum tempo, sua secretária. Dela, Moreau pôde obter “informações ... que permitem penetrar mais profundamente no conhecimento dessa rica personalidade que, apesar de uma saúde sempre vacilante, desenvolveu em todos os gêneros uma atividade literária considerável ...”.
Seminarista
Paul-Émile Boulin (1875-1933) nasceu em Arcis-sur-Aube, pequena localidade próxima da cidade de Troyes, e desde então até incorporada a ela. Seus pais eram, sem dúvida, muito católicos e de origem modesta.
Depois de seus estudos de humanidades, provavelmente concluídos na própria Troyes, Paul entrou no seminário, onde, de modo geral, foi julgado favoravelmente:
Caráter: muito bom. Orgulhoso. Original;
Piedade: (nenhuma observação);
Conduta: boa;
Talentos: acima do comum;
Aplicação: inconstante;
Pregação: muito boa, se se der ao trabalho;
Canto: fraco;
Cerimônias: fraco;
Saúde: fraca.
Sua vocação de escritor revelou-se desde então. “Ainda seminarista, aos 22 anos, recebeu da Société académique de l'Aube uma medalha de vermeil e um prêmio de 50 francos por um estudo sobre L'Art troyen au XVIIe siècle; e, no mesmo ano, publicou em Les Contemporains uma biografia de Simart,[4] sob o pseudônimo de Roger Duguet,[5] que usaria daí em diante. Em 24 de junho de 1898, antes de completar 23 anos, foi ordenado sacerdote.”
Pároco
Em julho, foi nomeado pároco de Faux-Villecerf (Aube, arr. Nogent-sur-Seine, c. Marcilly-le-Hayer, 270 habitantes), de onde parece ter guardado lembranças desfavoráveis. Em todo caso, mais tarde situaria ali seu romance Pauvre paroisse. Mas ali também foi vizinho do eminente pároco de Mesnil-Saint-Loup, trinta anos mais velho, que exerceu profunda influência sobre ele:
“... Não há dúvida de que os conselhos do veterano, que cuidara de seu rebanho ... contribuíram para imprimir profundamente no espírito maleável do jovem sacerdote ... o amor pela Igreja e, portanto, por Roma, garantia de sua unidade; a preocupação com a firmeza doutrinal; a recusa das concessões aos desvios e dos arranjos oportunistas; todas tendências que ele se alegraria em reencontrar e servir sob o grande papa São Pio X, em luta com a heresia modernista ...”.
Em 25 de agosto de 1901, Boulin foi transferido para outra paróquia bem próxima, porém um pouco mais importante (Valladin, arr. Nogent-sur-Seine, c. Marcilly-le-Hayer, 413 habitantes). Ficou ali apenas um ano e preparou-se para “outro apostolado mais de acordo com suas capacidades e seus gostos ...”.
No início do ano escolar de outubro de 1902, encontrava-se em Paris, como “diretor de divisão na École Bossuet, um externato para estudantes secundaristas, na rue du Luxembourg, atual rue Guynemer”.
Mas, sem que se saiba por quê, quatro anos mais tarde o encontramos pároco da muito modesta e distante aldeia de Villotran (Oise, arr. Beauvais, c. Auneuil, 187 habitantes).
Romancista
Em Villotran, Paulin permaneceria apenas dois anos (1906-1908), mas ali afirmou seus talentos literários. Em 1908, publicou em Le Pays de France, coleção dos escritores regionais, sob o pseudônimo Roger Duguet, La Folie-Mauroy, roman champenois, Paris, s.d. (1907), in-18º, 179 p. Ali desenvolve um tema que lhe é caro: o papel capital da mulher na evolução da sociedade, tanto para o mal quanto para o bem (tema de um volume seguinte). Mistura com frequência “uma ponta de ironia, que lhe dá um sabor bem champanhês, mas às vezes surgem bruscos e inesperados golpes de garra que traem o temperamento combativo do autor. Por contraste, aprecia-se ainda mais a serenidade apaziguadora que emana de certas descrições poéticas”.
O romance recebeu da Société académique de l'Aube o prêmio dos escritores regionais. Também provocou críticas favoráveis, inclusive por parte de La Croix, que, contudo, citava passagens “audaciosas”. Mais tarde, porém, por volta de 1912, durante o ataque mais geral contra Paul, La Libre Parole, de 8 de julho de 1912, considerou o livro “escabroso e de escrita malsã”. Com efeito, em L'Univers de 9 de julho de 1912, o autor reconheceria em seu romance “páginas demasiado vivas”, acrescentando: “eu não escreveria mais hoje esse pequeno livro”.
Durante sua breve permanência em Villotran, Paul preparou outros dois romances: Après l'option, ilustrações de Rousseau, s.d. (1908), in-8º, 97 páginas, mais moderado, e Pauvre paroisse, Paris, s.d. (1909), in-16º, 243 p., romance autobiográfico.
Jornalista
Essas publicações, que não carecem de valor literário, foram notadas até mesmo em Paris, onde Paul reapareceu já no fim de 1908. Ali fez sua estreia oficial no jornalismo, primeiro como secretário de redação dos Dimanches littéraires, depois como redator de L'Univers. Aqui, talvez sem o saber - ou sem o saber suficientemente -, Paul entrou no vespeiro parisiense. Católicos convictos, mas de diversas tendências políticas, religiosas, sociais e outras, combatem-se aberta ou surdamente: católicos liberais contra católicos integralistas; modernistas contra antimodernistas (estes últimos encontrando o apoio inteiro de Pio X); ultramontanos contra galicanos. Não podemos entrar em detalhes, mas remetemos de bom grado à obra muito instrutiva de Émile Poulat, Intégrisme et catholicisme intégral. Un réseau international antimoderniste: La “Sapinière” (1909-1912), Paris, Casterman, 1969.
O famoso jornal L'Avenir foi lançado por Lamennais, o católico liberal, mas, depois de numerosos incidentes, foi dirigido por Louis Veuillot, o fogoso ultramontano, adversário encarniçado de Montalembert, católico liberal que sempre combateu. Depois da morte de Louis Veuillot, sob seu irmão Eugène e sobretudo sob seu filho François, fervoroso partidário do catolicismo integral, L'Univers começou a vacilar.
Paul, agora secretário-geral, sentiu o peso disso; sua tarefa tornou-se esmagadora. Escreveu em 10 de dezembro de 1909:
“... Fico quase sozinho em L'Univers, e o que assino é quase nada em comparação com o que escrevo, e o que escrevo em comparação com a cópia que tenho de pôr em ordem ... O senhor deve ter acompanhado nossa evolução bastante rápida em L'Univers. Não pense que ela tenha sido espontânea ... As novas diretrizes pontifícias são muito claras, e Roma está decidida a ir até o fim contra o modernismo. É preciso ser católico até o fim contra o modernismo, o liberalismo. De maneira totalmente inesperada, asseguro-lhe, vejo-me envolvido nessa briga, e nela desempenho um papel que eu não teria previsto há seis meses. É muito grande, eu sei, para meus ombros, que correm o risco de sofrer com isso.”
Certamente Paul, como declararia mais tarde, “tinha em Roma apoios poderosos e, em Roma, inimigos poderosos”. Entre estes, deve contar, em Paris mesmo, Léon-Adolphe Amette (1850-1920), arcebispo (1906) e cardeal (1911). L'Avenir foi finalmente, em 1912, comprado por um grupo de católicos da Action française.
Paul ficou ligado primeiro ao semanário La Vigie, “órgão católico romano integral”, e depois a La Sapinière, da mesma tendência, ainda mais intransigente, que, apesar do apoio e até dos subsídios de Roma, não conseguiu firmar-se. Para pôr fim a isso, Amette pediu ao bispo de Troyes que chamasse de volta seu sacerdote.[6] De fato, o bispo nomeou Paul pároco de uma minúscula paróquia perdida, Saint-Pouange (Aube, arr. Troyes, c. Bouilly). Obediente, Paul foi para lá com sua mãe e sua sobrinha.[7] Mas ainda se ocupava, em escala menor, de jornalismo.
Recebia em sua casa paroquial amigos de outrora. Mons. Benigni,[8] colaborador íntimo do papa Pio X, era por vezes ali um hóspede bem-vindo. Quando, em julho de 1914, o bispo, para paralisá-lo ainda mais, quis, contra sua vontade, transferi-lo para outra paróquia, um pouco mais importante (Savières, Aube, arr. Arcis-sur-Aube, c. Méry-sur-Seine, 659 habitantes), Paul mostrou apenas uma obediência viril:
“... Já que Vossa Excelência deseja lembrar-me, talvez um pouco duramente, de que pertenço à diocese, não creio ser indiscreto lembrar-lhe que, na realidade, faço todos os dias, por essa honra, os mais duros sacrifícios de toda espécie ... É evidente, aliás, que, se se tratasse na realidade não de uma oferta, mas de uma ordem, Vossa Excelência não teria ainda uma vez filho mais submisso. Depois de suplicar-lhe que não me imponha essa nova provação, meu primeiro movimento seria obedecer-lhe, sem sequer querer pensar nos mais respeitosos meios de direito para escapar à sua vontade ...”.
Mas eis a guerra mundial. Apesar de sua saúde deficiente, Paul foi convocado para o exército e colocado no serviço auxiliar. Por uma razão desconhecida, porém, foi ordenada uma busca em seu domicílio, e ele foi transferido do serviço auxiliar para o ativo.
Depois da guerra, em setembro de 1919, foi nomeado professor no Colégio Municipal de Troyes. Mas no verão de 1920, após a morte súbita do cardeal Amette, pôde retornar a Paris. Em fevereiro de 1921, fundou ali uma revista bimensal, L'Actualité catholique, que encontrou o apoio do cardeal Dubois, sucessor de Amette. Dessa vez, porém, se Paris o apoiava, Roma o desaprovava. Com efeito, Pio X, seu protetor, desaparecera, e também sua política. Já em 2 de junho seguinte, Paul teve de anunciar a cessação de sua revista “por desejo da Santa Sé”.
Historiador
Desocupado em Paris, vítima da história contemporânea, Paul - pároco, romancista, jornalista - fez-se historiador sob o pseudônimo I. de Récalde. O “padre Récalde”, que no século XVIII se ocupara da história dos hospitais, teria sido natural de Troyes? Durante dez anos (1920-1930), I. de Récalde mergulhou na história dos jesuítas. É surpreendente, pois até então Paul parecia antes admirador e colaborador dessa poderosa ordem religiosa.
Na introdução de seu Margon,[9] Paul escreveria:
“Na verdade, vivemos por muito tempo demasiado perto dos jesuítas, ou mesmo demasiado misturados às suas falanges, para admitir de início suas falhas, às quais nossas simpatias nos tornavam cegos. Entretanto, uma série de incidentes contemporâneos pouco a pouco abriu nossos olhos ... E foi sob olhares desiludidos por essa cruel experiência da vida contemporânea que, por sua vez, passaram ou repassaram um a um, no curso de nossas pesquisas, alguns traços mais ou menos significativos do passado. De repente, o sentido de certas realidades permanentes, adquirido graças a esse rude aprendizado, iluminava para nós algum canto de arquivos que até então permanecera despercebido ou obscuro; ou a leitura de um autor antigo nos colocava novamente frente a frente com uma situação nova, uma esclarecendo a outra. Foi ao acaso desses encontros que nasceram nossas brochuras ... Quase somente as circunstâncias e a força das coisas fizeram tudo ...”.
De fato, Paul fazia ou mandava fazer pesquisas até nos Arquivos e na Biblioteca do Vaticano.[10] Gostava de produzir documentos oficiais e autênticos. Com efeito, detestava a história parcial, sobretudo quando ela pretendia ser imparcial. Atacou os volumes - especialmente o quarto - de Jean Guiraud,[11] Histoire partiale; histoire vraie (1910-1917), tão elogiados e reimpressos; os de von Pastor, Geschichte der Päpste, época moderna;[12] os de Mourret,[13] Histoire de l'Église; mas, sobretudo, os dos historiadores jesuítas: os Crétineau-Joly, os Brucker, os Tachi-Venturi,[14] etc.
Em 1920, Paul começou, portanto, a série de suas brochuras históricas. Eis a lista, na medida em que as possuo ou pude obter informação sobre elas. Todas foram publicadas sob o pseudônimo I. de Récalde e impressas em Paris, pela Librairie moderne, in-12º, muitas vezes sem data, de modo que a ordem cronológica que seguimos não é inteiramente certa.
- Le message du Sacré-Cœur à Louis XIV et le P. de la Chaize, (1920), 126 p.
- Écrits des Curés de Paris contre la politique et la morale des jésuites (1658-1659) avec une étude sur la querelle du laxisme, 1921, 305 p.
- Abbé de Margon, Lettres sur le confessorat du P. Le Tellier, avec une introduction, des notes sur la politique des jésuites et l'Oratoire, 1922, 310 p.; reimpressão em 1928.
- Histoire intérieure de la Compagnie de Jésus d'après les documents ... du récent ouvrage espagnol de Don Miguel Mir, Tome I, Les principes, (1922), 579 p.
- Une victime des jésuites. Saint Joseph Calasanz. Le P. Pietrasanta S.J. contre les Écoles Pies, d'après le chanoine Timon-David, 1922, 168 p.
- Histoire jésuite. Histoire vraie. I. À propos du bref “Dominus ac Redemptor” et la querelle des Rites, 1924, 136 p.
- La cause du Vénérable Bellarmin: l'autobiographie, Votum de Passionei, Lettre à Clément VIII, avec une introduction et des notes, 1923, 264 p.
- Un scandale jésuite: l'initiation sexuelle d'après une brochure de l'Action populaire: Faut-il parler? Que dire? Comment le dire? Simples notes à l'usage des parents et des éducateurs par un père de la Compagnie de Jésus, 1924, 100 p.
- Benoît XIV: Bulles “Immensa pastorum” et “Ex quo singulari” contre la Compagnie de Jésus pour l'affranchissement des Indiens de Paraguay et la condamnation des Rites chinois. Texte latin et traduction française publiés avec une introduction et des notes, 1925, 128 p.
- Autour d'un bref secret de Clément VIII, 1925, 128 p.; nova edição, 1930.
- Les jésuites sous Aquiviva: La canonisation de saint Ignace; La compagnie et les Illuminés d'Espagne; Condamnation de Suarez; La crise du généralat; Imago primi saeculi (D'après des documents inédits extraits des archives du Vatican), 1927, 308 p.
- Les mensonges de Ribadeneyra. Des miracles et de la mort de saint Ignace. Sur le fléau de la “sollicitation” en Espagne au XVIe siècle, Paris, 1929, 298 p.
Segundo L. Koch, Jesuiten-Lexicon, Paderborn, 1934, II, 1501-1502, essas brochuras foram distribuídas gratuitamente em escala muito ampla, até internacional, às custas de um financista parisiense, judeu convertido, que de início subsidiara os missionários, mas depois sofrera outras influências. Contudo, segundo suas capas, esses pequenos volumes eram vendidos por um preço relativamente baixo.
Não vamos nos ocupar mais dessas brochuras. Observemos apenas que então eram atuais, muitas vezes provocadas por publicações recentes que, no julgamento de Paul (e de outros), desprezavam a história verdadeira. Assim, Paul teve ao menos o mérito de reabrir problemas apresentados como resolvidos. Entretanto, ao pôr continuamente o dedo em feridas abertas, aumentou o número de seus adversários. Mas, combativo por natureza, não parecia temê-los nem evitá-los.[15]
Aposentado
Por volta de 1930, Paul depôs as armas. Foi obrigado a isso? Em 29 de dezembro de 1929, escrevendo a seu bispo (cito de Moreau):
“... O combatente desarmado rende-se, ao entardecer de sua vida, com este nobre testemunho: ‘Graças a Deus, nada tenho a censurar-me quanto à correção de minha vida sacerdotal ... Nunca fiz nada pelo dinheiro, pelos cargos ou pelo favor. Na hora em que somente Deus me resta, alegro-me, ao contrário, por não ter ganho, nesse duro serviço, sequer uma aposentadoria tranquila’.”
De fato, logo em 1930, Paul, sofrendo de reumatismos e crises cardíacas, retirou-se para Moussey, perto de Troyes; ali, porém, ainda não conseguiu abandonar completamente sua pena alerta. Com imprudências? Certamente com consequências desagradáveis.
Em 1931, Jean Rivière,[16] professor de teologia em Estrasburgo, a caminho de tornar-se famoso, considerou-se ofendido por um artigo que Paul, sob seu antigo pseudônimo Duguet, acabara de publicar na Revue internationale des Sociétés secrètes (revista muito católica fundada por Mons. Jouin), e apresentou queixa por difamação junto ao bispo de Troyes. Este, incomodado, quis fazer intervir o núncio. Imediatamente Paul reencontrou sua combatividade juvenil. Em 17 de novembro de 1931, fez saber a seu bispo:
“... Apelarei, se necessário, até ao Santo Ofício, pois ao menos está estabelecido o fato de que sustentei minha tese sob Pio X, em voz alta e inteligível, à vista e com o conhecimento do grande Pontífice, e não sem encorajamentos, quando se escondiam os pretensos intérpretes autorizados e tão suscetíveis de hoje, que pretendem impor-nos seu monopólio ... Vários de meus amigos não veriam com desagrado ser obrigados a publicar, para me defender, certo número de documentos que eu pensava enterrados comigo para sempre em meu retiro. Para dizer tudo, enfim, nem eu próprio tenho certeza de não encontrar, de minha parte, certo gosto em voltar a esse cheiro de batalha ... Se me é quase proibido falar, ainda sou capaz de opor memórias bastante curiosas, até mesmo a um doutor de Toulouse (tornado professor em Estrasburgo) ... Meu silêncio respeitoso de hoje não prejulga em nada minha fidelidade íntima a antigas convicções. Estou apavorado com o rumo cada vez mais rápido e decisivo que os assuntos religiosos tomam, dia após dia, em Roma, em Paris e até em Troyes. Se me fosse permitido, protestaria com todas as minhas forças ...”.
Mas, tendo o professor ofendido de Estrasburgo desistido, Paul não precisou trazer à luz seus documentos. Teriam eles sido efetivamente sepultados com ele em Moussey, em 6 de julho de 1933, quando, dois dias antes, “depois de uma longa doença e da piedosa recepção dos sacramentos”, o escritor combativo acabara de morrer ali, provavelmente já esquecido por um mundo ingrato, senão hostil![17]
Notas
[1]: Isso não quer dizer que minha curiosidade não me tivesse feito colher algo ali. Para o interesse especial de então, quando o Pe. Abbate, conventual, e Tachi-Venturi, jesuíta, polemizavam em torno do pontificado de Clemente XIV e da supressão da Companhia de Jesus, abri meu primeiro fascículo: Clément XIV. Le bref “Dominus ac redemptor”, portant suppression de la Compagnie de Jésus, avec une introduction et des notes par I. de Récalde, Paris, 1920, 135 p. A ocasião da canonização de Belarmino, que surpreendeu até mesmo o círculo do Vaticano, levou-me a ler a tão interessante autobiografia do novo santo em Un saint jésuite. La cause du Vénérable Bellarmin: l'autobiographie, Votum de Passionei, lettre à Clément VIII avec une introduction et notes, por I. de Récalde, Paris, 1923, 261 p. Confesso que essa autobiografia de Belarmino permaneceu em minha mente até o recente Congresso sobre o agostinismo em Louvain, onde tratei de Belarmino em Louvain e de Belarmino e da primeira proposição condenada de Baius; ver L'Augustinisme à l'ancienne Faculté de théologie de Louvain, sob a direção de M. Lamberigts, Louvain, 1994.
[2]: Ver L. Ceyssens - J.A.G. Tans, Autour de l'Unigenitus. Recherches sur la genèse de la Constitution, Louvain, 1987, onde Le Tellier é tratado nas p. 403-455.
[3]: Eis os títulos: Un curé de l'Aube polémiste et romancier: l'abbé Paul Boulin (1875-1933), 8 p. datilografadas, comunicação lida na sessão da Société académique de l'Aube em 18 de dezembro de 1970; L'abbé Paul Boulin romancier champenois, resumo de 4 p., lido em uma sessão posterior. Em 20 de outubro de 1981, M. de Moreau escreveu-me: “... Eu projetava outro estudo sobre seu zelo de jornalista parisiense, mas, por falta de tempo, tive de renunciar a ele”.
[4]: Pierre-Charles Simart, natural de Troyes, 1806-1857, escultor renomado; as enciclopédias apropriadas falam dele.
[5]: Esse pseudônimo parece ter sido tomado de Jacques Joseph Duguet (1649-1733), oratoriano, escritor muito conhecido, considerado jansenista; ensinou por algum tempo filosofia em Troyes. Ver Dictionnaire de théologie catholique, IV, 1858-1859. O Dictionnaire de spiritualité, IV, 1759-1769, chama-o de um dos melhores escritores franceses de espiritualidade.
[6]: Amette considerava La Vigie um dos três flagelos de sua diocese. Ver a enciclopédia Catholicisme, I, 449-450.
[7]: Primeiro Paul chama a atenção de seu bispo para “a repercussão considerável que terá, na imprensa e na opinião, a intervenção de S. Em. o cardeal Amette, que divulgou em excesso - tenho as provas em mãos - que a iniciativa visava à execução de um escritor católico romano integral e ao desaparecimento de um novo órgão com o qual ele colaborava ... só me resta confiar na justiça e na benevolência de Vossa Excelência ...”. Como o bispo manteve sua decisão, Paul escreveria: “Fui relegado para lá; lá estou”.
[8]: Umberto Benigni (1862-1934), jornalista e publicista fecundo. Ver uma nota na obra já citada de É. Poulat, Intégrisme et catholicisme intégral, Paris, 1969, p. 61-62.
[9]: Cf. abaixo. A esse autor enigmático dedicamos um pequeno estudo: Autour de la bulle Unigenitus. L'abbé Guillaume de Margon († 1760), “agent secret du P. Le Tellier”, em Lias (Groningen), 10 (1983), 132-169.
[10]: Em Les jésuites sous Aquaviva (cf. abaixo), Paul menciona as pesquisas feitas no Fundo Borghese do Vaticano e cita várias peças da Nunciatura da Espanha provenientes desse fundo Borghese. Evidentemente, Paul conhece e utiliza também os historiadores desfavoráveis aos jesuítas, inclusive o ex-jesuíta M. Mir, de quem chegaria a publicar parcialmente a Historia interna documentada de la Compañía de Jesús, 2 vols., Madri, 1913.
[11]: Sobre Guiraud, ver Catholicisme, 419-420.
[12]: Sem recorrer a Boulin, dediquei outrora um pequeno estudo a von Pastor: Ludwig von Pastor et l'histoire du jansénisme à ses débuts, em Mededelingen van het Nederlands historisch Instituut, 35 (1971), 14-43, retomado em meus Jansenistica minora, XII, fasc. 103.
[13]: Sobre Ferdinand Mourret, sulpiciano, católico liberal, ver Catholicisme, IX, 812-813.
[14]: Sobre esses jesuítas, ver L. Koch, Jesuiten-Lexicon, Paderborn, 1934.
[15]: Em suas sucessivas brochuras, Récalde às vezes responde de passagem a seus críticos; por exemplo, em Une victime des jésuites, saint Joseph de Calasanz, Paris, 1922, dirige-se bastante longamente ao R.P. Enrico Rosa, S.J., diretor de La Civiltà cattolica (p. 7-15), dando-lhe amplamente o troco: “... Seu surpreendente artigo de La Civiltà cattolica, de 4 de março, obra-prima de outro gênero e de outro espírito, deixa muito para trás as poucas ‘respostas peremptórias’ que alguns de seus confrades já nos deram e das quais nos propúnhamos oferecer o regalo a nossos leitores ... No mesmo tom, durante vinte páginas, em um italiano veemente que desafia toda cortesia, o senhor passa em revista, uma a uma, cada uma de nossas pesquisas ou reedições de textos antigos. Evidentemente, tanto trabalho que o senhor teve, essa explosão de desgosto ou esse excesso de zelo exigem uma resposta ...”. Vê-se: Paul maneja o florete com facilidade!
[16]: Sobre esse teólogo (1878-1946), ver Dictionnaire de théologie catholique, tabelas, III, 3910.
[17]: La Revue catholique (diocesana de Troyes) anunciou a morte, sem uma palavra a mais. Daniel Rops, o ilustre historiador, em sua obra Un combat pour Dieu, 1963, p. 367, menciona Paul como “um personagem duvidoso, sacerdote interditado por seu bispo ...”. Somente por volta de 1969, graças a Monsieur S. de Moreau, chanceler do bispado, os membros de Troyes da Société archéologique puderam ouvir (mas, tanto quanto sei, não ler) uma prudente evocação da carreira desse pároco, romancista e historiador que certamente merece algo melhor. A história também pode ser ingrata.